Saúde planetária, sazonalidade e sono
Por Claudia R. C. Moreno, professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP
A Saúde Planetária é um campo emergente de pesquisa que ficou mais conhecido a partir de 2015, quando a Fundação Rockefeller e a revista The Lancet publicaram o relatório denominado “Safeguarding human health in the Anthropocene epoch: report of The Rockefeller Foundation–Lancet Commission on planetary health”
Neste relatório, Saúde Planetária é definida como “a saúde da civilização humana e o estado dos sistemas naturais dos quais ela depende”.
A partir daí, houve o incremento de uma agenda científica que defende a ação coletiva em todos os níveis para uma sociedade global cooperativa e consciente. A finitude dos recursos naturais exige ações conjuntas de sistemas sociais, econômicos, ambientais e de saúde para a manutenção da saúde da população.
O aumento dos níveis de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso contribuem para o aumento de eventos climáticos agudos e extremos, além de, gradativamente, ocorrerem mudanças no clima. As mudanças climáticas irão gerar ondas de migração para áreas menos densamente povoadas em latitudes mais altas.

Nestas regiões, a sazonalidade é muito bem marcada, evidenciada por dias mais longos no verão e mais curtos no inverno. A exposição ao escuro prolongado do inverno afeta o sistema de temporização circadiano com consequências na cognição, no humor e no sono.
Em 2018, por exemplo, comparamos características do sono em trabalhadores de escritório no inverno e no verão em Kiruna (latitude: 67,86° N). Observamos um atraso no início do sono de 39 min no inverno em comparação com a semana de verão correspondente e duração do sono semanal mais curta em 12 min.
A sonolência também foi maior no inverno em comparação ao verão. Este estudo confirmou outros que sugerem que a falta de luz natural atrasa o ciclo sono/vigília, apesar do acesso à iluminação elétrica.
Um estudo sobre padrões de sono de 588 adultos em duas comunidades do Canadá (latitude: 55° N) mostrou que mais de dois terços (68,6%) dos participantes relataram mudar seus padrões de sono ao longo das estações, com uma duração maior do sono no outono e inverno.
Já em um estudo realizado na Antártica, região com fotoperíodos extremos, pesquisadores observaram uma redução da duração do sono durante o inverno, apesar de também ter sido observado um atraso na fase de início do sono nessa estação. O estudo foi realizado na estação argentina Antártica Belgrano II e confirmou o efeito significativo da sazonalidade no estado de alerta e no sono.
A curta exposição à luz natural em latitudes elevadas está associada também ao transtorno afetivo sazonal. Embora nosso sistema de temporização interno sincronize mecanismos fisiológicos às mudanças ambientais periódicas, possibilitando a sobrevivência em diferentes latitudes, sob diferentes equilíbrios de luz e escuro diários, algumas pessoas podem experimentar um conjunto de sintomas durante o inverno.
Essas pessoas sentem menos energia, mais fome e mais sono. Algumas pessoas desenvolvem o transtorno afetivo sazonal (seasonal affective disorder – SAD), um reconhecido tipo de depressão. Torna-se um desafio para as pessoas que sofrem deste transtorno acordar para ir à escola ou ao trabalho, e seu ganho de peso é difícil de controlar até que as estações mudem.
Estudos sobre alterações de padrões do sono e sua relação com a sazonalidade têm sido conduzidos em regiões com latitude elevada, especialmente devido à prevalência do transtorno afetivo sazonal. Apesar disso, a associação entre sazonalidade e sono ainda é pouco explorada.
O conhecimento sobre diferenças sazonais em relação ao sono poderá contribuir para melhorar a qualidade de vida da população não apenas nessas regiões, uma vez que efeitos subjacentes às mudanças climáticas começam a ser observados em várias regiões do planeta.
A alternância entre claro e escuro sincronizada com a atividade e repouso humanos está imbricada com estudos sobre sazonalidade e sono, os quais devem constituir parte da agenda científica de pesquisa em saúde planetária.
Texto original da Revista Sono. Leia completa.