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MULHER DA VIDA, É PRECISO FALAR

O dia 20 de julho marca os 35 anos do 1° Encontro Nacional de Prostitutas, para celebrar a data será realizado o evento “TRANSA de saberes: Com o movimento brasileiro de prostitutas”. Organizado pelo projeto “Cosmopolíticas do Cuidado no fim-do-mundo”, o Bacharelado em Saúde Pública da FSP e Coletive de Pesquisa em Antropologia, Arte e Saúde Pública (CPaS-1).

Fotografia: I Encontro Nacional de Prostitutas " Pr

O primeiro encontro nacional de prostitutas no Brasil aconteceu em 1987, Rio de Janeiro, entre os dias 20 a 23 de julho. O movimento foi organizado por Gabriela Leite, falecida em 2013. Gabriela, assim como Lourdes Barreto, foi uma das pioneiras dentro do movimento em 87 e o tema do primeiro encontro já demonstrava o caráter de dar voz às prostitutas com o slogan “Fala, mulher da vida”.  

A luta de Gabriela Leite, Lourdes Barreto e outras tantas mulheres começa anos antes, em uma movimentação política na região da Boca do Lixo (Bairro da Luz, São Paulo), o local era um dos maiores polos de prostituição da cidade e, assim como restante do país que transpunha pelos anos de ferro da ditadura militar, sofria com intensa repressão policial. 

Gabriela Leite. Reprodução.

Após o sumiço de duas mulheres, em 1979, foi organizado um movimento com garotas de programa na região da Boca do Lixo, houve assembleia e mobilização nas ruas da região. Como Gabriela Leite contou em seu livro Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta.

  • “Eram tempos de ditadura […] a polícia instituiu um toque de recolher na Boca do Lixo […] os policiais entravam nos prédios, exigiam documentos dos clientes […] Tiravam o dinheiro das mulheres e das travestis e depois batiam na gente […]. Numa dessas, sumiram duas meninas […]. Decidimos fazer uma manifestação […]. Donos de bares, garçons, cafetinas, malandros, travestis […] se juntaram em nome das prostitutas.”
Lourdes Barreto. Foto de Reprodução.

Após a movimentação no centro de São Paulo, em 1979, ainda no mesmo ano Lourdes Barreto é convidada pela Pastoral da Mulher Marginalizada para um encontro em Salvador. Nesse encontro conheceu Gabriela Leite, dali em diante surgiu uma intensa amizade e o desejo pela criação de um movimento organizado. Em entrevista para a Plataforma Hysteria, Lourdes Barreto conta um pouco desse início.

  •  “A Pastoral da Mulher Marginalizada me convidou para um encontro em Salvador. Digo que a pastoral católica deu uma grande contribuição na questão do empoderamento da mulher. Foi frequentando os encontros da pastoral que percebi que a gente precisava de um movimento autônomo, em que pudéssemos trocar nossas experiências […] Foi nesse primeiro encontro, em 79, que conheci a Gabriela Leite. Ela era uma meninazinha mais tímida. Eu, muito falante. Ficamos amigas e passamos a nos corresponder. Tivemos aquele sonho juntas, de nos organizar.”

Em 1990, no Estado do Pará, é fundado o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará, sob o comando de Lourdes Barreto, sendo um dos grupos mais longínquos em atividade em defesa da mulher prostituta. Hoje, Lourdes Barreto, a PutaAtivista, é conselheira no Conselho Nacional de Direitos da Mulher, Integra a Plataforma Latino-Americana de Pessoas que Exercem Trabalho Sexual (PLAPERTS) e a Rede Mundial de Trabalhadores Sexuais (NSWP).

Gabriela Leite. Foto de Reprodução.

Gabriela Leite faleceu em 2013, contudo deixando uma vida dedicada à luta por direitos das mulheres prostitutas. Cinco anos após os movimentos de 1987 criou a organização Davida, junto ao Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará, uma das primeiras organizações centradas na luta. Em 2005, faz parte da criação da Daspu, grife de moda voltada para mulheres prostitutas e que ajuda o financiamento das ações da Davida. O livro “Filha, mãe, avó e puta” é sua autobiografia publicada em 2009. No ano eleitoral de 2010 lança campanha para deputada federal, campanha retratada no documentário “Um Beijo para Gabriela” (2013) de Laura Murray.

EVENTO: TRANSA de saberes: com o movimento brasileiro de prostitutas

QUANDO: 27/06, 14:00 hrs.

ONDE: Auditório João Yunes – Faculdade de Saúde Pública da USP. Avenida Doutor Arnaldo 715. Disponível em LiveStream no canal do youtube da FSP/USP