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A faculdade do ódio

Nesse poderoso conto de Rosimar Batixta, uma filha espera 23 anos a liberdade do seu pai. Prisão e Covid19 produzem uma paisagem catastrófica atravessada por uma estranha mistura de afetos. A constelação de atores, autores, atuados e atentos que compõem o conto nos lembra de algo fundamental: por mais que pretos e pobres estudem, sempre tiveram – ao longo de suas vidas – que lidar com a faculdade do ódio. Foto: https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/09/10/negros-foram-mais-de-75-das-vitimas-de-letalidade-policial-em-2017-e-2018/

Ela entra em casa aflita, tranca a porta apressada, arregala os olhos, segura um grito e destrava o choro com a mão na boca. Já faz tempo que não pode confiar na vizinhança. Menos ainda depois do que aconteceu hoje. Chora nervosa, mãos trêmulas, sentada no chão, fazendo força com o pulmão. Está cansada de rezar e pedir justiça. Ver o pai quase morto, em coma, depois de tantos anos de sofrimento… E esperança. Um dia ele tinha que sair lá de dentro, a pena tinha que acabar… Mas nunca acabava. E não acabou. Vinte e três anos. “Mal comportamento”, “tentativa de fuga”, “liderança de rebelião”… A porra do sistema fez dele o que quis. Fosse no tempo dos doutores, seja agora com a corja de PMs no comando. Antes mesmo da pandemia, o diretor já tinha avisado: tu pode ter a doença que tiver, seu merda! Tu só sai daqui morto!

Ela chora e conversa com sua vozinha, que morreu triste por não ver o filho em liberdade. Pede desculpa por não ter conseguido. Eu lutei, vozinha, eu lutei. E ouve a avó consolá-la. Você lutou, minha filha, você lutou. E o teu pai também. Você precisa descansar. Não deixa esse sentimento te tomar. Você é uma menina boa. Pensa no teu filho. E ela pensa no filho. Fecha os olhos e sente uma sensação antiga de que não devia ter colocado mais ninguém no mundão. Só desgraça – cospe as palavras. Hoje ele tem quinze anos. Conheceu a bisa, mas o avô, viu só uma vez. Tá vendo este inferno? Ele perguntou pro menino assustado de doze anos. Não basta estudar, não. Tem gente aqui que estudou. Aquele ali formou em contabilidade e já faz 5 anos que tá aqui. Tem que ser é esperto. Um vacilo e… Ela ficou puta com o pai. Prometeu não levar mais o menino. Mas entendeu, ele tinha razão. Só que ela, como mãe, não podia dizer. Pelo menos, depois que começou a pandemia, o filho ficou mais quieto. A grana mais certa do mês é pra pagar a internet da casa da irmã. Ele a respeita e lá pode assistir as aulas longe dos problemas da escola, onde nunca se deu bem. Certa vez, o menino chegou em casa e falou que a diretora o tinha humilhado. Me chamou de galeroso e burro! Ela não dormiu bem por uma semana. Uma imagem do filho linchado e jogado sangrando no meio da rua foi gerada naquelas noites e nunca a abandonou. Sabia que a diretora tinha plantado uma semente que ela teria que cuidar para não brotar.

E volta a lembrar do pai, que uma vez contou que tudo começou assim, na escola e não na rua. E na minha época não era todo mundo que ia pra escola, não. E eu era bom aluno. Mandava bem em matemática e até em português. Mas não adiantava, minha filha, com essa pele e essa cara que a gente tem e sem grana, o que é que tu acha? Qualquer vacilo e eu pegava 2 suspensão. Melhor era ser filho de traficante, porque aí o diretor tinha medo. Mas tua avó trabalhava lavando cueca de doutor. Justiça nesse mundo, minha filha, é a gente que faz. Não adianta pedir, não… Tem é que botar pra cima, tem que fazer sentir medo.

O choro intensifica. Ele tinha razão. O pai falava bem… Será que voltará a falar? Quando era criança, ele não estava sempre perto, mas aparecia, passava uns meses com elas, trazia presente, fazia alguma obra na casa. Diferente de sua mãe, que sumiu quando tinha seis anos. Dela não sente saudades, mas aprendeu a não julgar. Será que o pai a fez sentir medo? Será que sofria de algumas dessas doenças que toda hora aparecem na cabeça de alguém? Será que isso que sente não vai causar uma coisa dessas? Será que também deveria sumir? De noite, luta pra fazer a cabeça parar.

Como agora. São nove da noite e ela começa a enxugar o choro. A mente a milhão. Mas o corpo começa a não lutar contra o ódio. E ela o deixa ficar e o alimenta com outras lembranças, das humilhações que passou desde cedo. Ela era uma boa menina, boa aluna, bem menos revoltada que o pai. Mas os PMs do bairro faziam questão de passar por perto e provocar. Tá com saudade do papai, hein florzinha? Aos poucos aprendeu a engolir o medo, segurar o enjoo e seguir com a cabeça em pé, sem cair na armadilha. Sua vozinha a ensinou quando tinha 14 anos: dar pro pai a notícia de sua prisão era o que eles mais queriam. De sua morte, então… Tem que segurar firme essa cara feia durante a revista também, viu? A gente tem que passar desapercebidas. E passou vinte e três anos visitando, puxando a pena com o pai, tentando fazê-la correr. Quase todo domingo, às vezes sábado, levando o remédio pra pressão, um sabonete, uma escova de dente, um chinelo, um prato de comida. Ele gostava mesmo era da feijoada que ela fazia com 3 bastante jabá e linguiça. Sorri triste e mais uma lágrima escorre, de pura saudade.

O corpo acalma. Lembra do sorriso dele. E lembra da última vez que o abraçou. Faz tanto tempo! Depois disso, só viu o pai três vezes pela tela do celular, em chamadas de um minuto e sem qualquer aviso. Chegou a se esconder no banheiro da casa da patroa pra atender. E ela tem certeza de que fazem isso de caso pensado, pra adicionar ansiedade e frustração à angústia de não poder olhar no fundo dos olhos, dar um abraço, um beijo, sentir o cheiro. As chamadas, pelo menos, serviam pra saber que estava vivo. Mas podia ver no rosto do pai uma tristeza nova, dessas que não passa. Uma vez ele se arriscou: minha filha, tá todo mundo doente aqui! Pra quê? Desligaram e ela ficou sem vê-lo e ele ficou sem vê-la por quatro meses.

O ódio cresce. Lembra das covardias do sistema, do sorriso cínico dos coronéis e dos rostos dos agentes que controlavam as visitas, na época em que existiam. Não podia esquecer do olhar sádico da mulher que a observou cagar e mijar depois de ter passado por quatro aparelhos que detectam até o café da manhã no estômago. Engolir toda a humilhação, nas visitas e na rua, era difícil demais. Depois que a avó morreu, entrou pra Associação e passou a bater de frente. Ficou conhecida pelo sistema todo. Aprendeu a falar de direitos humanos, sem nunca esquecer que cadeia e direitos são coisas incompatíveis. Lembra da fala da finada Marlúcia, uma senhora negra, bonita, de voz doce, mãe de um rapaz desaparecido durante uma rebelião em Natal. Isso aqui é uma guerra! E pensa como viveu assim, numa guerra, misturando o medo, a humilhação, a angústia, a frustração e o desespero, e fabricando perseverança, alguma esperança, uma outra inteligência e um ódio… Esse que agora se fortalece enquanto a esperança, junto com seu pai, entra em coma. Esse ódio que ela viu pela primeira vez lá dentro, nos olhos do Josué, um jovem que seu pai e sua vozinha ajudaram. Ficam dizendo que isso aqui é a faculdade do crime. Porra nenhuma, minha filha! É a faculdade do ódio! Essa, bem diferente da outra, a de enfermagem, ela mesma cursou até o final. Hoje, percebe, recebeu seu diploma.

Sente o ar faltar e busca a bombinha na bolsa. Desde que pegou covid, na porta da unidade durante uma rebelião, o pulmão nunca mais foi o mesmo. Tira o remédio e encontra a carta da Associação com a última denúncia, descrevendo o que aconteceu com o corpo dos presos e das presas. Imediatamente, no seu próprio corpo, volta a impotência que sentiu na última reunião que tiveram com os doutores, semana passada. Lembra como se fosse sua a fala agressiva de sua amiga de luta, a Cleia. E enxerga o rosto dos dois homens durante a reunião, entre inexpressivos, impacientes, irritados e envergonhados. Antes da pandemia, a gente já dizia que não tavam atendendo doentes, que não davam direito os remédios, que não davam material de limpeza. Nem água tinha. Os senhores ignoraram. Quando a desgraça desse corona apareceu, a gente avisou que o vírus ia entrar e que ia infectar todo mundo. Os senhores se lembram? Lembram, né? Mas acreditaram na Secretaria, não foi? Que não tinha casos, que o grupo de risco tava isolado, que tava tudo sob controle… A cidade empesteada e os senhores acreditando num coronel da PM e numa madame que não faz ideia do que é cadeia. Ela não faz ideia nem do que é saúde! E, ainda por cima, aceitaram aquela lista ridícula de grupo de risco que esses caras demoraram dois meses pra entregar! Quantas pessoas ganharam liberdade? Nem metade da lista! Nem cinco por cento dos presos! Aí, quando apareceram os testes e não tinha mais como esconder, a gente pediu para soltar quem tava doente. Lembram? E, de novo, os senhores aceitaram o papo de que as unidades tavam cuidando dos doentes, que era melhor ficarem lá dentro, que podiam trazer a doença pra casa das famílias e blá blá blá. Eu sei que já falamos, mas vamos repetir aqui: morreram pelo menos duzentas pessoas! A Secretaria diz que foram “só” cinquenta e três. Claro, porque o resto mandaram pro hospital ou pediram pros senhores mandarem pra casa. Fizeram isso pra não morrer todo mundo lá dentro! E pode ter mais! Tem preso que a gente não sabe nem se tá vivo. Todo mundo sabe que tem um cemitério lá do lado. E ainda teve rebelião… E todo mundo sabe o que acontece depois de rebelião. Mas o que a Secretaria passou a contar foi o número de recuperados! Maravilha, né? E como todo mundo pegou, foram quase quinze mil recuperados. Agora a gente está dizendo pros senhores: são quinze mil sequelados! Todo mundo já sabe que esse vírus ataca o corpo todo, não é só pulmão, é rim, é coração, até cérebro! Escutem doutores – Cleia bateu na mesa e fez o vídeo tremer: nós queremos entrar! E junto com os médicos que nós mesmas vamos indicar! Pode ser com os senhores, sem os senhores, tanto faz, mas queremos entrar. Não tão vendo que o sistema vai explodir?

Pra nada. Já estava difícil antes da pandemia, agora, então, com militar e pastor tocando o combate à tortura em Brasília… Mas elas tinham que tentar. E tinha familiar tentando em tudo quanto é estado do país. Porque todo mundo já sabia o que ia acontecer. E ainda com os salves de outubro pedindo consciência e união na guerra contra o sistema… E o salve do dia primeiro? Ela lembra de cada palavra: no dia dos mortos vamos honrar os nossos e fazer um voto de silêncio no Brasil todo. Elas, na Associação, decidiram cumprir esse voto também. Não por obediência, pois não deviam nada a ninguém. Fizeram porque acharam importante e muitas familiares agradeceram. Mas, são atos diferentes. Cadeia em silêncio nunca é bom sinal. O dia 2 foi um dos mais longos de sua vida.

Retorna ao dia de seguinte, ao dia de ontem, que ainda não acabou. Mais de trezentas revoltas. Quase um quarto de todas as cadeias do país. Em cima das caixas d’água, lençóis brancos com palavras de ordem nunca vistas no sistema: “paz federal”, “união nacional”, “todos contra o sistema”, “20 mil mortos”, “800 mil doentes”. Um vídeo curto com a cara dela gritando desesperada na frente do choque viralizou. Se vocês matarem eles, nós seremos a justiça. O vídeo repetia a cena umas dez vezes. Era puro desespero. E ódio.

Por quase um momento, um dia inteiro, os governadores ficaram sem reação. Mas, pela manhã, os milicos já tinham dito que aquilo era problema de segurança nacional. E, à noite, avaliaram o que acontecia nas redes sociais. E decidiram invadir as unidades com tudo o que tinham na mão. Tudo: PM, Civil, Exército e Aeronáutica. E ela fecha os olhos e enxerga as cenas que não viu: corpos magros e doentes fugindo de homens e cachorros treinados para matar, encurralados nas celas, pisoteando uns aos outros, com as peles rasgadas pelos estilhaços de bombas de efeito moral e por uma sequência ininterrupta de balas de borracha, respirando até a morte o gás lacrimogêneo de uma dezenas de granadas.

E ela imagina o pai nessa cena, xingando e afrontando seus inimigos até o último segundo, à frente dos mais jovens. Ele foi dado como morto. Só saiu lá de dentro por isso. Disseram que estava estirado junto com outros corpos quando alguém percebeu que ainda respirava. Conseguiu vê-lo por cinco minutos na UTI, o corpo cheio de cortes pela barriga e os curativos dos buracos no braço, no peito e outro bem no meio do ouvido. A enfermeira falou que estavam em carne viva, que tinha mais nas costas e que ele pode ter uma trombose no pulmão, por conta do corona. Não sabia se devia ter esperança. Não acreditava que ele ganharia liberdade. Voltaria pro inferno, com mais uma acusação, outras sequelas e a memória do massacre. Talvez desaparecesse lá dentro sem que ela pudesse enterrá-lo.

Da última vez que olhou o grupo da Associação, no meio de duzentas e tantas mensagens de desespero, alguém disse que já tinham contado setenta mortos na capital. No grupo da Nacional, alguém postou uma conta com mais de cinco mil no país. E ainda é cedo pra contar, muito cedo. Eles venceram, eles venceram, eles venceram… De repente, começa a ouvir uma gritaria na rua. Muitas vozes se aproximam. Ela levanta, dá dois passos até a pia, puxa uma faca suja e se esconde atrás da geladeira. Estava certa. Queriam aproveitar para linchá-la, completar na rua o serviço que fizeram lá dentro. Batem na porta. E ela puxa outra faca com a mão direita. Levanta o rosto, segura a última gota de choro, respira fundo e olha pra porta como todo o ódio cultivado nos últimos anos, nas últimas horas.

Batem de novo. Conceição? É a Tiana, do salão. Tá em casa? A gente veio pra te dizer que sente muito. Isso que o governo fez não tá certo, não. Ela se assusta e não entende. Só pode ser armadilha… Toca o telefone. Ela mexe na bolsa e vê que é o filho. Larga uma das facas e atende com a mão nervosa, sem dizer uma palavra. Mãe, cadê a senhora? Tá vendo o que tá pegando? Mãe…? A senhora tá aí? Tão queimando buzão, carro, banco… Teve um lugar que invadiram o batalhão da PM. E tem um monte de gente na frente das casas dos políticos, chamando eles de assassino e fascista… Tem até torcida organizada, mãe! Esses caras tão tudo fodido! Onde é que a senhora tá? Tá passando na TV… Eu tô em casa, meu filho, tô em casa… Eu vou pra rua, mãe! Tá todo mundo saindo… Você fica quieto aí na casa da tua tia, menino! E desliga o telefone confusa. E caminha na direção da porta. Ainda com uma das facas na mão apontada pra frente, suando frio, ela vira a chave com cuidado, abre a porta rápido, dá dois passos pra trás e vê a cara assustada das vizinhas, em quem nunca confiou. Foi muita covardia, Conceição, muita covardia. Foi a gota d’água… Gota d’água? Pra quem? Ela respira fundo, olha nos olhos de cada uma e deixa a pergunta pra lá. Desvia das vizinhas, na direção da rua, atraída pelo barulho de uma discussão. Tinha é que matar tudo! Era o dono do mercadinho. Diante dele, uma mulher baixinha que sempre a cumprimentava responde gritando mais alto. Cala a boca, seu fascista de merda! Fica em casa, se não a gente te enche de porrada!

Ela se aproxima. Precisa ver de perto pra crer. E, sem perder o ódio, começa a sair do transe do dia.

Texto de Rosimar Batixta. Publicado em 30/07/2020.

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