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Dói

Não bastasse a pandemia, brutalidades extremistas de ódio produzem ainda mais dissabores a mulheres, pretos e pobres. Texto de Flávia Melo. Publicado em 19/08/2020.

“Vó, dói aqui”. Gemia Dandara, amparando o ventre com as pequenas mãos, sem saber exprimir o que sentia no corpo maltratado. Conhecera outras dores antes, mas aprendera a silenciar aquela provocada pelo toques indesejados do tio entre as suas frágeis pernas.

“Doutor, dói aqui”. Com as mãos sobre o peito, Anastácia suplicava ao médico. A velha cuidara de Dandara desde que a mãe da menina as deixou para trabalhar noutra cidade numa casa de família.

“Senhora, dói aqui”. Explicava tecnicamente o médico, Justo, com a mão sobre a cabeça. Sentado à frente da cruz, sua dor de consciência pesava 35 gramas.

Dandara voltou para casa com o ventre violado prenhe. Anastácia segurava nas mãos a mão da neta e o próprio coração. Avó e neta não dormiram naquela noite. Suas dores não passaram. Temiam a volta do tio-filho que estava longe.

Justo, o doutor, dormia, com a consciência leve, o sono dos justos.

Houve quem também não dormisse. Um velho, Excomungado, as escutou e decidiu ajudá-las. Mas a consciência dos justos não dorme e, em vigília, uma Legião condenou-o mais uma vez: “Assassino!”.

Ao Excomungado juntaram-se Bruxas, dezenas delas, confrontando a Legião. Os gritos de dor, as acusações da Legião e os cantos das Bruxas ecoaram longe. A batalha durou toda a noite.

A polícia espalhou o medo: “Monstro foragido!”.

Antes do amanhecer o tio-filho foi encontrado. Pobre e negro, na cela, expiou sua culpa. “Traficante, ex-presidiário, criminoso!”. Seu corpo rotulado foi torturado, violado e morto. “Estuprador, Monstro!”. A justiça dos justos se fez.

Dandara dorme, a dor no ventre passou. As outras dores não.

Anastácia ainda sente a dor no peito.

Observa a neta adormecida ao seu lado, na maca do hospital. Mas segue acordada, aflita, pensando no filho, o Monstro, na cela. E recorda a tortura e a violação. Da neta, do filho, do seu povo. E pensa: “Essa dor nunca passa?”.

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