O SONO NA QUARENTENA: E DÁ PARA FALAR DE OUTRA COISA?
Publicado em uma coluna na Revista Sono, a professora Dra. Claudia Roberta traz alguns estudos aplicados sobre o sono durante a quarentena, fomentando a questão: Dorme-se mais, entretanto, se dorme melhor?
Hoje eu inauguro a minha participação como colunista da Revista Sono. Ao receber o convite do editor Dr. Luciano Ribeiro, senti-me honrada e, apressadamente, aceitei-o, sem nem pensar sobre o que eu escreveria na minha primeira coluna. Porém, ao sentar-me para iniciar esse texto, não me ocorre outra coisa a não ser falar do que tem sido uma realidade para a população de quase todos os países no mundo: a quarentena. Na verdade, embora seja essa a palavra que vou adotar nesse texto, esse é um termo genérico, pois aqui no Brasil estamos em uma fase que seria melhor denominada de “distanciamento físico voluntário”. Quarentena é o termo adequado para pessoas infectadas e em isolamento, o que não é o caso da população que opta por ficar em casa, atendendo às recomendações da Organização Mundial da Saúde como uma forma de prevenção ao contágio ao Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19.
Nesse período em que muitas pessoas estão trabalhando em casa remotamente, há um relato predominante de mudanças nos horários de dormir e acordar. Em geral, as pessoas falam em um atraso de fase, isto é, vão dormir mais tarde e acordam mais tarde, mas há também uma queixa relacionada à irregularidade dos horários de sono. Muitos ainda se dizem sem ou com poucas referências temporais por estarem em casa e afastados do trabalho, relatando que não sabem mais nem em que dia da semana estão, com a segundafeira sendo exatamente idêntica ao domingo.
Tais percepções chamaram a atenção de pesquisadores que começaram a realizar inquéritos sobre os hábitos de sono durante a quarentena. Um levantamento rápido no PUBMED, feito no dia 24 de junho, mostra 272 artigos em uma busca com as palavraschave “Covid-19 e sono”. Esse número tende a aumentar à medida em que as pesquisas sobre o tema vêm sendo realizadas em vários países e já são 25.837 artigos publicados sobre a Covid-19.
Pesquisadores de vários países, coordenados pelo pesquisador americano Kenneth Wright da Universidade do Colorado, compararam os horários de sono de 139 estudantes universitários antes e durante a quarentena. Os estudantes monitoraram o tempo na cama, a regularidade e a duração do sono, enquanto tinham aulas presenciais e, posteriormente, quando estavam em casa tendo aulas remotamente. Durante a estadia em casa, o tempo na cama dedicado ao sono aumentou em cerca 30 minutos durante dias da semana e 24 minutos nos fins de semana; o início do sono atrasou em cerca de 50 minutos durante a semana e 25 minutos nos fins de semana e, portanto, a diferença entre o início do sono do fim de semana e do dia da semana diminuiu, reduzindo também o jetlag social.
Além disso, os pesquisadores observaram que os estudantes com menores durações do sono antes da quarentena foram aqueles que revelaram maior aumento na duração do sono quando estavam estudando remotamente. A porcentagem de estudantes que relatou sete horas ou mais de sono por noite nos dias da semana aumentou de 84%, no período anterior à pandemia, para 92% durante a estada em casa. Esse resultado evidencia que a restrição de sono que ocorre nos dias de semana provocada pelos horários das aulas foi reduzida durante a quarentena, quando os jovens universitários estavam mais livres para escolherem seus horários de dormir e acordar.
Uma questão que surge após a leitura de alguns estudos sobre o aumento da duração do sono diz respeito à qualidade do sono. Em outras palavras, dorme-se mais, mas será que se dorme melhor durante a pandemia? A neurocientista Christina Blume diria que não, ou seja, a qualidade do sono piorou durante a pandemia, ao menos para a população participante do seu estudo. Nesse estudo, os pesquisadores acompanharam 435 pessoas por seis semanas durante a fase mais restrita da quarentena, o chamado lockdown, na Áustria, Alemanha e Suíça.
Os resultados mostraram que o lockdown reduziu a incompatibilidade entre o horário social e biológico, à medida em que as pessoas começaram a trabalhar em casa e a dormir mais horas a cada dia, o que corrobora os resultados obtidos no estudo de Wright. A duração do sono também aumentou, embora menos em relação ao observado no estudo com estudantes: cerca de 15 minutos por noite. Apesar da duração do sono ter aumentado, os dados indicaram uma percepção dos participantes de que a qualidade de seu sono diminuiu.
A redução da qualidade do sono também foi observada em uma pesquisa realizada online e publicada na revista francesa L’Encephale por Hartley por colegas da Universidade de Versalhes Saint-Quentin-em-Yvelines. De um total de 1.777 participantes, 47% relataram uma diminuição na qualidade do sono durante a quarentena. Além deste e de outros resultados observados, chamo a atenção para a observação dos pesquisadores acerca da redução da exposição à luz natural e o aumento do uso de equipamentos eletrônicos à noite (com telas luminosas, como celulares, tablets etc). É interessante observar esse resultado no qual há uma maior exposição à luz artificial durante a quarentena (via exposição às telas dos equipamentos) ao mesmo tempo em que as pessoas se expõem menos à luz solar.
A relevância da exposição à luz solar no sono não se limita a trabalhadores noturnos ou em turnos, pessoas que trabalham em escritórios comuns podem ser beneficiadas pela exposição à luz natural. Pesquisadores de várias instituições americanas estudaram trabalhadores de dois escritórios quase idênticos, sendo a iluminação a única diferença entre eles. Em um escritório foram mantidas as persianas já existentes e no outro as janelas foram tratadas com a tecnologia de envidraçamento eletrocrômico, a qual permite a passagem de mais luz solar, minimizando o brilho. As pessoas trabalharam nos dois escritórios por uma semana e, no final da semana, trocaram de escritórios. Os dois grupos estudados dormiram, em média, 37 minutos a mais quando trabalhavam no escritório com mais iluminação natural. Também foi observado que as pontuações em testes cognitivos melhoraram quando os trabalhadores estavam no escritório com maior exposição à luz natural. Embora esse estudo não tenha sido realizado durante a quarentena, ele demonstra a importância da luz natural para aumentar a duração do sono e seu reflexo na cognição e desempenho.
Em resumo, podemos dizer que se a quarentena nos permite dormir mais, precisamos garantir que esse sono seja satisfatório e tenha efeitos positivos em nosso desempenho, já que temos que realizar muitas tarefas em casa, sejam ligadas ao trabalho ou não. Para melhorar o sono durante a quarentena, vale aproveitar a luz natural, seja no jardim ou pela janela, além, é claro, de reduzir o uso à noite de equipamentos eletrônicos que emitam luz.
Dra. Claudia Moreno – Bióloga, Dra. em Saúde Pública, Vice-presidente da Associação Brasileira do Sono. Publicado em 11/08/2020.