Ontogênese de ritmos biológicos e sono
Devemos entender a ontogênese como o estudo de como o organismo se modifica ao longo da vida, partindo da sua concepção ao nascimento e ao longo de toda a sua vida. Diferentes aspectos, desde a nossa fisiologia ao nosso comportamento, são expressos de forma distinta nas diferentes fases da vida. Particularmente quanto ao sono, não apenas a sua expressão, quando nos referimos à duração e aos horários de dormir e acordar, e seu papel funcional apresentam particularidades de acordo com as diferentes fases da vida.

Quanto à sua duração, partimos de um franco predomínio da fase do sono, frente à vigília, no início da vida, para uma progressiva redução na sua duração ao longo da infância, fato associado à consolidação do sono noturno e à presença dos cochilos esporádicos que interrompem a vigília ao longo do dia até o início da idade escolar (Andrade et al., 1993).
Na transição para a adolescência, torna-se evidente uma outra particularidade do sono, sua mudança de fase. A grande propensão ao sono, que nos mais jovens apresenta sua elevação já ao anoitecer, dá lugar à manutenção do estado de vigília que avança na noite, fato sustentado pelo romper das modificações fisiológicas do desenvolvimento puberal (Anders et al., 1980)
Portanto, de forma coordenada e natural, a diminuição da temperatura central, o início do surto de melatonina e o início e o final do sono apresentam um atraso na sua expressão no organismo adolescente (Crowley et al., 2007).
O desenvolvimento puberal também marca a microestrutura do sono. Desta forma, podemos observar uma redução significativa tanto da fase de sono de ondas lentas (NREM), quanto da fase do sono REM (Feinberg & Campbell, 2010). Especificamente, o declínio mais expressivo no sono de ondas lentas ocorre entre 12 e 16 anos de idade e reflete o crucial degrau de maturação do sistema nervoso humano. Ainda, é importante salientar que a progressiva queda na atividade do sono de ondas lentas que ocorre ao longo de cada noite de sono também sofrer modificações ao longo da adolescência. Por exemplo, a partir de 15 anos de idade os jovens apresentam uma lentificação desta queda da atividade das ondas lentas ao longo de uma noite de sono, o que reflete na grande necessidade da manutenção da duração do sono nos adolescentes até o final desta fase da vida (Tarokh et al., 2011).
Como expressão da privação de sono durante a semana decorrente da interação entre os aspectos fisiológicos naturais do sono e a organização dos horários escolares matutinos aos quais os adolescentes estão sujeitos, podemos observar uma duração do sono aumentada nos dias livres, como nos finais de semana, especialmente para adolescentes com maior atraso do sono, os vespertinos (Wittmann et al., 2006).

A transição para a fase adulta é marcada por uma progressiva redução da necessidade de sono e um retorno do seu início e final para horários mais precoces do dia (Roenneberg et al., 2004). Já a senescência é acompanhada por marcantes reduções do sono de ondas lentas e sono REM, associadas ao avanço de fase significativo do sono, ao tempo acordado após o início do sono noturno e ao retorno das inserções de cochilos ao longo da vigília, ou seja, o sujeito idoso tende a dormir e acordar mais cedo, ter mais despertares durante o sono noturno e (Pandi-Perumal et al., 2002). Estas modificações no ciclo sono-vigília humano em função do envelhecimento são explicadas tanto pela redução da regulação dos estados de sono e vigília ao longo das 24 horas quanto pelas modificações estruturais e funcionais do sistema de temporização endógeno, portanto ocorrendo em paralelo com modificações nas diversas expressões rítmicas do organismo, como na temperatura central e na melatonina, às quais apresentam também avanço de fase e redução da sua amplitude ao longo do dia (Weinert, 2000)
Texto elaborado pela Associação Brasileira do Sono / www.absono.com