Eleições e sono: como eventos políticos podem afetar o sono da população?
Claudia R.C Moreno, PhD é Chefe do Departamento de Saúde, Ciclos de vida e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP. Com estudos do sono humano no Equador, na selva amazónica e sobre o círculo ártico para lutar contra os segredos do comportamento saudável. Membro do Working Group of the IARC-WHO Monographs on the carcinogenicity or night shift work.
Eleições e outros eventos políticos podem ocorrer de forma tranquila, mas sempre geram ansiedade em candidatos ou pessoas mais próximas a eles. Há casos, entretanto, em que as eleições são uma fonte poderosa de estresse e ansiedade para grande parte da população. Em geral, isso ocorre em eleições presidenciais ou eventos políticos de maior magnitude. Em 2022, tivemos no Brasil eleições para diversos cargos políticos, inclusive para a presidência. Vivenciamos alterações de nossos próprios estados afetivos, do humor e, particularmente, o sono.
Mas, será que a nossa (ou a minha) percepção empírica de que alterações no sono ocorrem durante um período de eleições foi observada em estudos epidemiológicos? Na eleição presidencial de 2020 nos Estados Unidos, por exemplo, um grupo de pesquisadores e Boston estudou eleitores que residiam no país e também eleitores que estavam fora do país na ocasião da eleição. Participaram do estudo pessoas entre 18 e 90 anos de idade.

Os resultados demonstraram que houve um aumento no estresse nos dias que antecederam a eleição, especialmente entre os residentes nos EUA, com pico no dia da eleição. Nos dias que se seguiram à eleição, os níveis de estresse se recuperaram tanto para os residentes nos EUA quanto os que estavam fora do país. O consumo de álcool também aumento no dia da eleição entre os norte-americanos residentes no país. Além disso, foi observada neste estudo uma correlação entre redução na eficiência e duração do sono com as alterações de estados afetivos.
Em resumo, os pesquisadores observaram que o “humor público” foi afetado pelas eleições presidenciais norte-americanas de 2020. Segundo Rahn (1996), humor público pode ser definido como o estado afetivo que as pessoas experimentam por serem membros de uma determinada comunidade política. Embora o humor público venha sendo associado a sintomas de saúde mental, pouco tem sido estudado em relação à sua associação com parâmetros do sono. A vasta literatura de estudos sobre sono e humor aborda a questão do ponto de vista individual ou de alguns grupos específicos, mas não de toda a população. A relevância do sono para a saúde torna também necessário compreender como se dá a relação entre eventos de ordem política que afetam o sono de populações inteiras.
Em um estudo de 2018 sobre o inquérito do Brexit no Reino Unido e a eleição presidencial norte-americana, ambos em 2016, pesquisadores coletaram 10,5 milhões de registros de sono geolocalizados de mais de 69.000 usuários na Europa e na América do Norte por meio de um aplicativo. Os resultados do estudo revelaram uma redução significativa na duração média do sono dos britânicos na noite após a votação do Brexit.

Da mesma forma, a análise da eleição presidencial dos EUA revelou uma queda significativa na duração média do sono durante a noite seguinte ao evento e um aumento na noite subsequente.
Além disso, foi realizada uma comparação da noite da eleição com os mesmos dias em anos anteriores. Esta análise revelou que a redução real na duração do sono pode ter sido ainda maior. Ainda sobre a eleição norte-americana de 2016, outro estudo avaliou as respostas de humor e cortisol diurno de 286 jovens adultos dois dias antes da eleição, na noite da eleição e dois dias após a eleição.
Nesse caso, observou-se que os participantes que faziam parte de um grupo social não dominante (mulheres, jovens adultos de minorias étnicas/raciais) relataram sinais de estresse elevados antes da eleição e na noite da eleição. De modo geral, os pesquisadores concluíram que a maioria das respostas psicológicas e fisiológicas eram amplamente dependentes ou moderadas por atitudes políticas e fatores individuais. As diferenças nos efeitos observados na população e sua associação com seu grupo social, assim como sua posição política, foram descritos em um estudo sobre a eleição presidencial dos EUA em 2008.